"Milhares de pensamentos passam em nossas mentes todos os dias, todos os segundos. O mundo gira, a vida passa, nada para! Presenciamos coisas, fazemos escolhas, formamos opiniões. Poemas e versos se fazem sem que percebamos, então vamos concretizar os pensamentos! A liberdade de falar nem sempre nos é dada, ou mesmo que dada, nem sempre nos convém falar. Bem-vindos ao meu mundo. Falemos o que pensamos!"







quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um conto

Enquanto ela observava a chuva através da janela, pensava em como sua vida havia mudado.
Entrava no ritmo do cair das gotas geladas, e imaginava-as tocando sua pele morena e escorrendo desde seus cabelos, até passar pelo seu rosto e morrer em seu colo.
Era de manhã, e ela tinha pouco tempo.
Não estava frio, apesar da chuva, era um dia agradável e seu desejo intenso era se misturar a ele, mas o dever a chamara.
Virava-se para o espelho e o encarava. Gostava do que via. Sua cintura era afinada, mas seus seios não eram tão grandes quanto ela gostaria que fossem. Gostava de suas pernas e dos olhos que escondiam grandes mistérios, passava a mão sobre seus cabelos agora lisos e lembrava-se de quando brigava com sua aparência. Agora não era mais problema.
Estranhava em ver ali parada, uma mulher. Sentia-se tão menina por dentro...
Como pode o tempo ter passado sem ela perceber?
Viajava em suas lembranças, desenterrava-as e tentava lembrar-se quando foi que deixara de ser uma frágil adolescente para tornar-se uma...mu...lher.
E elas vinham aleatoriamente: sua infância, a separação dos pais, os constrangimentos da época da escola, sua vida conturbada; sempre cheia de acontecimentos, sua adolescência nada rebelde, o grande amor da sua vida e uma história mal acabada, suas decepções amorosas, seu primeiro namorado, seus amigos falsos e os verdadeiros, e as fases em cada momento. Ela sempre entrava mais menina e saia mais mulher, embora fosse sempre madura.
Abrindo a janela, sentia o vento doce e macio entrando em seu quarto e arejando tudo a sua volta, o cheiro e o barulho da chuva quebravam o silêncio.
Seus pensamentos falavam alto, ora escapava um sorriso de seus lábios, ora uma saudade apertava fazendo-a segurar o peito, e entre uma lembrança e outra, as dores que ela já não sentia mais doer.
Perguntava-se o porquê de tudo, mas sabia a resposta.
Fechou os olhos e deixou-se levar. Abriu os braços e sonhou.
Idealizava um futuro. Uma profissão diferente, um carro importado, uma casa aconchegante, filhos bonitos, um bom marido, e ser feliz para sempre.
Mas estava satisfeita com a vida, e vez ou outra queria voltar ao passado e reviver alguns momentos com a maturidade de agora. Certamente teria aproveitado muito mais.
Concluía então que a vida era sempre surpresa, e que ela não poderia perder tempo.
Sua vontade era tornar-se alguém! Alguém para o mundo, fazer algo muito diferente, inédito e extraordinário. Ela era dona de vários dons e apaixonada por musica, arte e literatura. Mas o que ela poderia fazer? Nunca tinha sido destaque em nada.
Gostava muito de ajudar as pessoas.
Admirava sua mãe. Certamente não haveria uma mulher igual àquela.
“Ahhh, quão guerreira é mamãe. Como pode uma mulher ser tão forte, possuidora de um corpo tão frágil? Como pode ser tão bela e possuir o colo mais acolhedor do universo? Foi Deus quem fez mamãe pra mim.”
Desviou-se desses pensamentos. Provavelmente algum dia buscaria ser alguém importante. E voltou-se a se lembrar do passado.
Ela viveu cada momento em seu tempo exato. Nunca fora precoce, disso ela estava sempre convicta. Não quis perder sua vida, não quis engravidar, nem fumar, nem beber, nem fazer uma tatuagem ou por um piercing. Teve vaidade aos 16, e o primeiro beijo aos 14, mas o primeiro namorado, só aos 18.
Ela era sempre menina com atitudes de uma mulher. Ela buscava, trabalhava, estudava, centrava-se e às vezes esquecia-se de aventurar-se.
Mas agora ela sabe que pode recomeçar sempre algo novo, quando quiser.
Ela queria ser dona do mundo, queria largar aquele trabalho que não a fazia bem, queria que seu pai a tivesse colocado no colo e a chamado de princesa, mas era feliz por ele.
Sentia um abraço forte, agarrava-se a ele, não conseguia chorar, só queria permanecer ali abraçada, entrelaçada, protegida...a sensação de proteção era algo estranho, geralmente ela estava sempre sozinha por escolha, e pela vida tê-la acostumado assim.
Abriu os olhos e se viu diante do espelho, com seus próprios braços em volta de sua cintura.
Sua expressão era serena, tranqüila, renovada. Sonhar a fazia muito bem, seus sonhos a moviam, seu mundo imaginário era um escape perfeito para seus problemas.
Viu que, aquela menina que um dia foi frágil, agora já nem era tanto, e as coisas que antes doíam, hoje eram indiferente...achou estranho, mas sorriu. Ironicamente ou não, ela sorriu.
Olhou para fora e se deu conta que a chuva passara, mas o vento soprava seus cabelos e seus ouvidos, fazendo cócegas. Ela sentiu felicidade, sua vida não era perfeita, ela não era perfeita, as pessoas cheias de erro, mas era isso que a deixava tão satisfeita, por saber que ela não era a única a errar, e que cada um tinha uma chance. Só que ela decidiu aproveitá-la.
E continuar buscando, incessantemente, seus momentos de felicidade!

Daniele Brito

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